segunda-feira, 28 de julho de 2008

Venha contar sua história de vida!

A Estação Memória é um espaço aberto a quem se interessar em contar sua história de vida. Os depoimentos coletados são orais e ficam disponíveis em nosso acervo para consulta pública. As entrevistas são realizadas por um grupo de idosos e coordenada por Ivete Pieruccini. São mais de 120 depoimentos registrados. Consulte-nos para mais informações. A seguir, destacamos fragmentos de dois depoimentos de pessoas que compartilharam suas histórias de vida conosco.
Aziz Ab’Saber (transcrito por Yvonne Pasta) “Quando já estava começando a trabalhar, morávamos na Vila Maria Alta, no bairro chamado Jardim Japão; aí, a desgraça era o transporte: eu saía do colégio, tinha que andar pela Vila Maria Baixa inteirinha até à igreja de Cristo Rei, subir por uma escada talhada no barro vermelho para ir almoçar na minha casa, no topo do morro. Depois, para evitar essa dificuldade, viemos para Vila Maria Baixa, em frente ao terreno onde estava sendo construída a via Dutra; Eu via a lama escura da várzea sendo tamponada para poder agüentar as pistas da via Dutra. Eu fiquei prático de laboratório na Universidade desde que terminei a graduação, fiz uma espécie de mestrado, que naquele tempo se chamava especialização. Então um professor reparou em mim e me ofereceu um cargo simples, apenas para pôr um pé na Universidade, o que era bem difícil na época. Aceitei, embora ganhando menos, ali ficando por 18 anos. Nesse período não dei atenção ao cargo para o qual tinha sido admitido, que foi o de jardineiro (por isso que o professor perguntou se eu era vaidoso). O pessoal da Geografia soube disso e me levou para aquele departamento. Eu só trabalhava com biblioteca; como jardineiro não fazia nada porque nem jardim tinha direito e tinha outras pessoas que faziam essa parte. Então eu comecei a reunir os livros que eu achava em toda parte e falei com o novo diretor (não o diretor que me convidou) para começar a formar uma biblioteca. Daí vem essa minha admiração por biblioteca. Daí, não! Quando eu estava me preparando para terminar o curso de Geografia e História eu centrei minhas atividades na Biblioteca Municipal, que ficava na rua Sete de Abril. Depois, quando construíram a Biblioteca Mário de Andrade e eu passei a ser rato de biblioteca. Encontrava lá o Florestan e mais algumas pessoas de História Natural e de Matemática, e formamos um grupo que ia no sábado para a biblioteca depois do almoço e ficava até à noite e no domingo não mudava o programa: nós íamos depois do almoço e ficávamos até de noite. Nada de namorar(...) era fantástico, mas sobrevivi.”
José Dalmo Ribeiro Ribas (transcrito por Jamile Ribeiro de Faria e Marlene Takatohi) “Eu nasci aqui em São Paulo, no bairro da Vila Mariana, na Rua Joaquim Távora (...) a casa em que eu nasci, ela ainda existe (...) tal como ela era há muitos anos atrás. Minha casa era uma casa assim, polêmica. Eram comuns os momentos de convivência grupal em que a gente falava a respeito das coisas que estavam acontecendo. Então, o mote era sempre o que saiu no jornal de ontem, o que saiu no jornal de hoje. Dependendo do nível de interesse, em geral, eram assuntos ligados à política, aquilo era cuidadosamente recortado e colocado em cima da mesa para mostrar para o próximo que chegasse, o que estava acontecendo. Essa era uma maneira que nós tínhamos de participarmos do que estava acontecendo na cidade, no país, no mundo. Era o e-mail da época. Havia assim uma brincadeira que era a de futebol, que a gente praticava. Eu sempre fui um perna de pau, nunca tive habilidade prá isso, tanto que sempre me punham como goleiro, mas já era comum, na rua, o jogo de futebol. Tinha jogo de malha, tinha bola de gude sempre, papagaio, empinar papagaio (...) em Curitiba, a criançada lá, era mais imaginosa, então, algumas brincadeiras que tinha lá não haviam em São Paulo (...) por exemplo, uma brincadeira comum era teatro (...) sempre alguém inventava alguma coisa que inovava. Era uma vida mais compartilhada do que essa que nós temos hoje, onde tudo já está pré-estabelecido, pronto prá consumo. Eu lembro com muito carinho, uma recordação que o meu pai trazia, da vez em que pousou o primeiro avião em São Paulo. Isso deve ter sido, por volta de 1914, 1915, alguma coisa por aí e como um avião iria pousar em São Paulo, se não havia aeroporto e o avião era uma invenção recente? Pousou na Avenida São João, em frente aos Correios e Telégrafos, então, evacuou-se a rua e esse avião veio do Rio de Janeiro (...) prá São Paulo, fez o seu pouso aqui e depois retornou ao Rio de Janeiro. O piloto dessa proeza era o Roland Garros, isso eu fiquei sabendo muitos anos depois... Nós éramos quatro filhos (...) idades próximas, éramos só dois, eu e o Antonio Guilherme. O Antonio Guilherme tinha como diferença de idade, em relação a mim, um ano e nove meses, era mais jovem que eu. Dos filhos, foi o que veio a falecer primeiro, porque durante o período de recessão, que a gente viveu aqui, na democracia brasileira, a minha família foi assim bastante atingida, por conta do regime militar. Tanto meu irmão, quanto eu, nos colocamos contrários à ditadura militar, a gente quis ser mais conseqüente nessa oposição, então a gente foi militar num partido clandestino, que era o PCdoB, que à época era identificado como o pessoal da linha chinesa, o pessoal da luta armada e por conta disso, a gente acabou se distanciando, um pouco, em relação à família. Tínhamos família, mas era assim, uma família com uma outra constituição, que não agregava os de sangue, mas os de luta também.”